Paula Mastroberti

Bem-vindos a Peter Pan e Wendy: projeto. Ele está sendo desenvolvido a partir da minha tese de doutorado defendida na Faculdade de Letras na PUCRS, que basicamente estudou a obra Peter Pan e Wendy, de James Matthew Barrie, suas traduções gráficas e sua receptividade no Brasil. Entre outros objetivos, pretendo apresentar, como produto final, uma versão ilustrada desse texto literário que completou 100 anos em junho de 2011. Este blog foi criado para compartilhar os conceitos, os traços e o processo que envolve a produção dessas ilustrações e da sua versão em quadrinhos.
(Clique sobre as figuras para ampliá-las.)

domingo, 8 de maio de 2011



Capítulo VIII - The Mermaid's Lagoon [A lagoa das sereias]: quanto mais próximas elas ficarem de peixes, melhor. Sem deixar de serem graciosas, levemente sensuais, elas não podem, tal como Tinker Bell e Peter, terem aspecto humano. Parte do ecossistema da ilha, junto com as fadas e as feras, elas são brincalhonas, mas nada gentis. Ainda não cheguei a uma boa definição quanto à elas. O segundo perfil da página à esquerda (foto abaixo) me parece ok. Os cabelos devem ser mais duros, lembrando barbatanas ou espinhaço. O estudo de cor vai colaborar bastante nesse caso: nada de tons cor-de-carne, mas esverdeados ou azulados (lembram das sereias do filme Peter Pan de P. J. Hogan?).



O Capítulo VII - The home under the ground [O lar subterrâneo] trata, basicamente, de uma descrição da rotina das crianças Darling em Neverland. Eles recriam, junto com Peter Pan e os meninos perdidos, o comportamento adulto e familiar: Wendy é a mãe, Peter é o pai, os meninos perdidos, John e Michael são seus filhos. Michael, por ser o menorzinho, torna-se o bebê da casa, e dorme num cesto pendurado no teto. A disciplina é rígida e coordenada por Wendy. Tinker Bell é isolada nessa brincadeira, mas ela tem seu próprio quarto, cuja descrição, tanto quanto a do esconderijo subterrâneo, é muito sugestiva (mas as ambientações eu deixei para desenvolver posteriormente). Por enquanto, meus estudos se centram numa Wendy bastante atarefada e no desenvolvimento do gestual das personagens.
Esse capítulo também é uma digressão sobre as possíveis aventuras que a turma teria vivido na ilha. Barrie vai e volta, fala de um passado, projeta futuros que não se tem certeza se aconteceram mesmo ou se ainda acontecerão. Seu modo de narrar evoca bem a atemporalidade fantástica da história, mas de uma maneira inovadora na literatura infantil (ou juvenil, a depender dos critérios), porque ele faz uso da metalinguagem. Preferi me abster de ilustrar passagens que podem tirar a força da aventura "sorteada" (segundo o próprio narrador) para compor o capítulo seguinte.

quinta-feira, 5 de maio de 2011


No final do Capítulo VI, Peter Pan adormece. Os adormeceres de Peter Pan são frequentes ao longo da narrativa e chamam minha atneção: poucos heróis infantis são apresentados em situações de fragilidade. Peter Pan, herói invencível, sofre muito enquanto dorme, e revela através de pesadelos medos e fraquezas, que só Wendy pode aliviar. As fadas que o acompanham desde Peter Pan in Kensington Gardens são suas amigas e prontas para qualquer aventura; mas dão piparotes em seu nariz quando ele cai no sono, como mostra essa cena.
Adoraria manter essa ilustração no projeto final: Peter Pan adormecido enquanto guarda a casinha de Wendy, as fadas retornando de alguma orgia, como diz Barrie, passando luminosas por cima dele na noite escura, cutucando-o sem que ele perceba. Ela faria um contraponto irresistível com a cena em que ele é surpreendido pelo Capitão Hook dormindo no Esconderijo Subterrâneo.  


O Capítulo VI inicia com Wendy atingida pela flecha de Tootles. Ela não está morta, mas desmaiada de susto: a flecha atingiu o "beijo"de Peter (a semente de uma árvore), que ela trazia amarrada ao pescoço, protegendo-a. Desfeita a confusão, Tinker Bell seria expulsa do bando para sempre, mas tem sua pena reduzida em uma semana, a pedido de Wendy.
Felizes com a chegada da nova "mãe", os meninos perdidos, orientados por Peter, constroem uma casinha de faz-de-conta para Wendy morar. Essa casinha, feita de galhos, folhas e flores, eu procurei configurar de modo bidimensional, como uma moldura em torno da figura de Wendy. Nota-se o carinho e a admiração de Barrie pelas mulheres; o modo como os meninos, incluindo Peter, reverenciam a personagem e como ela os domina completamente. 
Por isso, me irrito quando vejo ilustradores que sequer a incluem nas configurações, ou, quando o fazem, a mostram como uma menina bonitinha e sem graça; não é a toa que muitos leitores acabem preferindo Tinker Bell.
Minha Wendy deve expressar afeto e feminilidade (quase sensualidade), além de uma personalidade forte e decidida. Nesse sentido, a concepção da Disney é uma das melhores referências.

Quase entrando no Capítulo VI - The little house [A casinha], já é hora de falarmos um pouco mais de Tinker Bell. A primeira aventura em Neverland inicia por conta dela: ciumenta, ela voa na frente e avisa aos meninos perdidos que Peter Pan quer que eles matem o "pássaro branco" - Wendy, avistados por eles.
Tinker Bell, que era inicialmente um ponto de luz no meu discurso visual, agora toma a forma de uma estranha garotinha. Ela, como Peter, não pode ser configurada como um ser humano normal. Minha inspiração em termos de estilo é claramente o mangá, nesse caso, mas pode ainda evoluir. Também quero que ela lembre um inseto. Ela é uma fada, ela é bonitinha, rechonchuda (assim a descreve Barrie), mas ela é um elemental: um ser instintivo, espontâneo e amoral. Barrie a descreve como um ser que só pode ter um sentimento por vez: como um bebê que não controla ainda suas emoções, Tinker Bell não é boazinha, nem malvada, mas está entregue às suas paixões. Como um bichinho de estimação, será fiel a Peter até a morte, como se verá.

quarta-feira, 4 de maio de 2011




Por fim, os estudos para Tiger Lily e Great Big Little Panther, representando a tribo Piccaninny, e o Crocodilo, uma das feras de Neverland. Embora eu prefira a segunda Tiger Lily, a terceira é mais próxima da estrutura facial de uma índia norte-americana. Little Panther é descrito como tendo um cinturão de escalpos atado ao corpo. Os demais índios aparecerão ao longo dos estudos, conforme a atuação nos capítulos seguintes.



A descrição de Barrie do chefe dos piratas, o Capitão Hook é tão boa e complexa - e a medida em que essa personagem vai evoluindo na narrativa, mais interessante ela se torna - que é um prazer desenhá-la. Eu o experimentei em suas várias faces: terrível, ardiloso, amargo, sensível, invejoso, sofisticado - e por tudo isso, meio insano... Ele exerce um fascínio do qual nem mesmo Wendy consegue escapar. Mas não posso esquecer que ele está em relação analógica ao Sr. Darling. O Capitão Hook deverá ser sua versão caricata. O comportamento adulto elevado ao cubo. Junto dele, temos Noodler (um pirata cujas mãos foram decepadas e fixadas ao contrário) e Smee, simplório e doméstico (não consegui deixar de pensar nele como um velho escocês de suíças ruivas).