Paula Mastroberti

Bem-vindos a Peter Pan e Wendy: projeto. Ele está sendo desenvolvido a partir da minha tese de doutorado defendida na Faculdade de Letras na PUCRS, que basicamente estudou a obra Peter Pan e Wendy, de James Matthew Barrie, suas traduções gráficas e sua receptividade no Brasil. Entre outros objetivos, pretendo apresentar, como produto final, uma versão ilustrada desse texto literário que completou 100 anos em junho de 2011. Este blog foi criado para compartilhar os conceitos, os traços e o processo que envolve a produção dessas ilustrações e da sua versão em quadrinhos.
(Clique sobre as figuras para ampliá-las.)

domingo, 13 de novembro de 2011

Dedais entre Peter e Wendy


Ah, a cena do beijo... uma das minhas preferidas. Ela começa em Peter Pan em Kensington Gardens, no encontro entre Maimie e Peter, ainda habitante das árvores do parque. Barrie enxugou o texto dessa parte em Peter Pan e Wendy, retirando algo de sua melancólica sensualidade. O troca-troca de beijos e dedais termina numa - afinal! - dedalada de Peter em Wendy. Wendy ficou bem melhor aqui, mais próxima da expressão que eu desejo para ela: o cabelo mais bagunçado, um ar doce, mas quente, de malícia infantil. Peter é fácil, está completamente dominado. Os tons de pele devem diferir, o de Wendy mais rosado e vivo, o de Peter pálido, tendendo para o esverdeado ou azulado. Notem que ele segura o colar com a bolota de árvore na mão, pois também esse colar tem o significado de beijo.

Dessa vez eu deixei os traços do esboço inicial em papel aparecerem mais sob a pintura digital. Sempre tenho pena de soterrar os esboços ou de limpá-los: eles contém informações sobre a escrita gráfica que muitas vezes vale a pena manter, porque traduzem emoção, decisões, hesitações... Reflexões sobre o tema e os elementos desenhados.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


Tinker Bell, aqui no Brasil traduzida invariavelmente como Sininho.
Ela só deve aparecer em seu formato "sólido" quando em Neverland.  Na casa dos Darling, ela é apenas uma luzinha animada.

Minha configuração de Sininho tem uma levada de mangá nos cabelos. Ela é um ser de fantasia, e deve se apresentar como tal. Mantive a veste de folha seca, mas não em corte reto, como sugere Barrie; ela é rechonchuda e, apesar de fada, quero mostrar um pouco de sensualidade, dado o seu temperamento apaixonado. Os olhos grandes, como os de um inseto, vão irradiar raiva, amor, ciúmes, conforme a situação da narrativa: ela é pequena, então seu rosto deve destacar toda a intensidade dos seus sentimentos.
Eu a imagino mudando o tom do cabelo para púrpura ou roxo quando de mau-humor. Na cena em que ela está morrendo, toda ela deve desbotar para um tom de azul acinzentado, e o cabelo pode branquear.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Capitão Hook em cores


E eis o nosso fascinante Capitão Hook, com seus olhos cor de miosótis ou, como quer um outro tradutor, não-me esqueças (no original, forget-me-not: a flor é a mesma). Sim, além das "velas pretas" descritas no Capítulo V, eu apliquei uns "boucles" no cabelo, que aparecerão quando ele estiver sem o chapéu.
Abaixo, o traço original, em papel:


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Estudos para Wendy: do grafite ao tablet



Estudo de cor para Wendy, com Tinker Bell incluída. A combinação de cores lembra um pouco Elisabeth Taylor versão criança: cabelos escuros e olhos azul-violeta. Ficou com uma expressão um pouco pueril, eu acho, parecendo aqueles retratos românticos de criança (tipo Murillo, se é que me entendem). O melhor de Wendy - um arzinho um tanto malicioso e mais esperto - surge quando ela está com Peter, cuja pele fria, de tons azulados, contrastará com a sua, mais rosada e saudável. Numa tentativa próxima, prometo fazer coisa melhor.


Acima, o esboço em grafite sobre papel que originou a arte digital.

domingo, 26 de junho de 2011

Estudos para Peter Pan - do lápis ao tablet




Do  meu Caderno n. 2, o estudo de cor para a cena "Cave, Peter! [Agora, Peter!]"na qual Peter Pan entra no quarto das crianças Darling.




O estudo, feito em grafite sobre papel, foi digitalizado e colorido em etapas. 

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Primeiro caderno - conclusão

Até aqui, cumpri os processos iniciais para produção das artes para a obra Peter Pan e Wendy, que completou em junho 100 anos de existência. Abri e digitalizei um caderno de esboços realizados no período de 10 meses, entre 2 de julho de 2010 e 3 de abril de 2011.
Minha próxima etapa será a de aplicar as ideias e conceitos surgidos durante essa primeira fase na configuração de ilustrações chaves para a obra, incluindo estudo de ambiências, estudos de cor e planejamento gráfico. Essa segunda fase também será veiculada aqui, assim que possível.
O segundo caderno já foi iniciado. Outras ideias estão surgindo, ideias anteriores estão sendo apuradas e até modificadas.

Também estou sendo contatada por algumas editoras.

Agradeço o interesse de todos os que acompanharam esse trabalho até aqui - espero que prossigam interessados e comentando. Ele permanecerá disponível, ao lado do próximo segmento, nesse mesmo blog.
Último capítulo, enfim. O Capítulo XVII - When Wendy grew up [Quando Wendy cresceu] chegou a fazer parte do roteiro da peça de teatro, mas jamais foi encenado. No texto literário, entretanto, ele foi acrescentado, graças-a-deus: para mim, ele é extremamente significativo e fundamental para se compreender o universo barrieano e sua mais famosa personagem - Peter Pan. Nunca consigo lê-lo sem chorar. E olha que minhas leituras desse universo (digo universo porque ele é, na verdade, plurimidiático: teatro, filmes, animações...) começaram aos seis anos, com a Disney.




Os meninos perdidos são adotados pela família Darling, tal como prometeu Wendy. Todos crescem, ficam adultos. Mas os meninos são tratados de modo diferente de Wendy por Barrie, que não enxerga no sexo masculino uma continuidade para o espírito infantil (o único modo de um menino permanecer criança seria assumir-se um "peter pan", ao que parece, tal como diagnosticou Dan Kiley). Os garotos crescem e esquecem como voar, esquecem Neverland e as aventuras vividas. Wendy, entretanto, não chega a romper com o período infantil: ela cresce, amadurece, mas algo de Peter Pan permanece nela, e será transferido para as próximas gerações. Nota-se a admiração, ou melhor, a reverência carinhosa de Barrie pela função mulher-mãe. 


Wendy cresce aos poucos: primeiro, Barrie diz que ela já não cabe mais no vestido de flores, folhas e frutas vermelhas que ela havia confeccionado na sua primeira viagem a Neverland (oh, sim, ela é a única a voltar para lá, sempre nas primaveras). Ela não esquece Peter, mas é Peter quem a vai esquecendo, como esquece as aventuras que vive, como esqueceu até mesmo o seu maior inimigo, o Capitão Hook.
A ilustração à direita, acima, deve ser anterior a que está à esquerda: nela vemos Wendy em plena puberdade, o corpo meio envergonhado ainda, com seu vestido curtinho: me tirem todas as ilustras desse capítulo, mas não me tirem esta! Wendy NUNCA foi ilustrada assim, nesse misto de sensualidade e inocência. Me inspirei direto em Pubertet, de Edvard Munch.

Ela se casa, mas não pode deixar de olhar para trás, esperando que Peter apareça e a leve para seu o mundo. Numa época em que as mulheres casavam quase sempre por obrigação, muitas vezes sem conhecer plenamente seus futuros maridos, é possível compreender o temor de Wendy pelo casamento e pelo estranho que está ao seu lado.


Então, numa noite, após colocar Jane, sua filha na cama, Peter reaparece, tão pequeno quanto surgiu para Mary Darling (que já faleceu e que tinha aquele beijo, lembram, escondido nos cantos dos lábios). Ele se assusta com uma Wendy adulta - a cena é trágica e carregada de melancolia.


Peter, sabemos, não é de manter por muito tempo os mesmos sentimentos: logo ele se distrai com Jane, com quem havia confundido a antiga amiga inicialmente. A história termina tristemente para a minha querida protagonista, pois agora é a vez de Jane partir. Para Wendy, a janela aberta para Neverland não é mais transponível. Para Peter Pan, o texto literário é, entretanto, só mais um evento em sua longa, transcendente e eterna narrativa. Depois de Jane, virá Margareth e depois - quem sabe? - eu, você.

Isso enquanto existirem no mundo crianças alegres, inocentes e sem coração e adultos que preservem, na memória e no espírito, todas as instâncias da vida em si mesmos.